No outono de 1995, numa cafeteria, um dublê de 24 anos, acima do peso e especializado em monstros, ouviu do diretor de ação Junji Yamaoka a frase que partiria sua vida em duas: "Ano que vem, você vai fazer a Pink."
Motokuni Nakagawa pesava mais de dez quilos além da conta. Passava os dias suando dentro dos monstros-máquina de "Chouriki Sentai Ohranger", e a primeira coisa que lhe ocorreu, contaria anos depois no próprio blog, não foi alegria: "Uma Pink interpretada por alguém como eu? Ninguém vai querer ver isso." Seguiu-se uma das dietas menos glamorosas da história da televisão japonesa: corrida diária, álcool cortado, cinco quilos em duas semanas, doze ao todo — e, num certo dia, o susto de urinar vermelho-vivo, hematúria de esforço, como ele aprenderia às pressas.
"Você... é a Pink mesmo? Isso é corpo de Black!"
A figurinista, na prova de figurino da Pink Racer
Em março de 1996, quando "Gekisou Sentai Carranger" estreou, ninguém diante da TV soube de nada disso. Na tela havia apenas a Pink Racer — valente, atrapalhada, "travessa e pretty", como escreveria um fã anos mais tarde. Dentro dela, invisível por contrato e por vocação, estava ele.
Nos dez anos seguintes, Nakagawa — cujo nome fora do Japão ainda circula como "Motoo", um equívoco de leitura dos ideogramas de Motokuni — vestiu cinco guerreiras cor-de-rosa: Pink Racer, Ginga Pink, Go Pink, Time Pink e, num último chamado, Bouken Pink. Os fãs japoneses o consagraram com o título que o web-rádio do apresentador Shocker O-no oficializou em 2011: "Mister Pink" — ou, entre os mais rigorosos, "o Mister Pink da era Heisei". O ofício que o Japão chama de suit actor é a mais paradoxal das profissões do ator: quanto melhor executado, menos se percebe que existe alguém ali. Nakagawa levou o paradoxo ao extremo. Fez carreira desaparecendo duas vezes — dentro do traje, e dentro de uma arte que já é invisível por definição.
Onnagata: uma tradição emprestada do kabuki
A tradição que ele herdou tem nome emprestado do kabuki: onnagata, o especialista em papéis femininos. Nos primeiros anos dos esquadrões coloridos, ainda na década de 1970, houve mulheres dentro das heroínas; logo os capacetes desproporcionais e a exigência acrobática empurraram os papéis para homens miúdos e treinados. A imprensa japonesa registra o caso fundador de Michihiro Takeda, o Denji Pink de 1980, que frequentava bares noturnos para estudar os gestos das atendentes. Depois dele veio Yuichi Hachisuka, que emendou sete heroínas seguidas entre os anos 80 e o início dos 90 e virou sinônimo da especialidade.
Foi diante dele que tudo começou para Nakagawa: em 1989, em seu segundo ano de treinamento, figurante de soldado raso em "Turboranger", o garoto viu de perto a Pink Turbo de Hachisuka e saiu convertido.
"A fofura, a beleza, a elegância... existe alguém capaz de fazer isso? Um homem, interpretando a Pink Turbo... Hachisuka é um gênio."
Motokuni Nakagawa, sobre a revelação de 1989Quando criou, anos depois, a pose de apresentação da própria Pink Racer, ele a desenhou a partir da pose da Pink Turbo — reverência de discípulo, escondida à vista de todos.
O garoto de Higashimurayama
Nakagawa nasceu em 21 de agosto de 1971 em Higashimurayama, na periferia oeste de Tóquio. Com 1,67 metro — pequeno para os padrões masculinos, exato para uma heroína —, entrou ainda adolescente para a 17ª turma do JAC, o Japan Action Club fundado por Sonny Chiba. A estreia foi no teatro ao ar livre do parque de diversões Korakuen, na temporada de outono de "Liveman", em 1988: nos dias úteis ia à escola; nos domingos e feriados, apanhava de heróis. O batismo veio completo no ano seguinte, com um cotovelo deslocado e uma clavícula quebrada — levado ao hospital ainda vestido de soldado do mal, foi tomado pela enfermeira por "dançarino".
E o acaso, que tem senso de humor, foi deixando pistas: em "Fiveman" (1990), ele se lembra de ter vestido repetidas vezes a guerreira rosa de um esquadrão falso chamado, veja só, "Gingaman" — oito anos antes de vestir a Ginga Pink verdadeira. O primeiro kaiju que interpretou, o Professor Telefone de "Dairanger" (1993), era, palavras dele, "um monstro inteiramente cor-de-rosa".
"Quando visto o figurino, o sentimento entra"
Takeda estudava mulheres; Nakagawa, não. Seu método coube a vida inteira numa única frase, dita a um livro oficial em 1999: "Quando visto o figurino, o sentimento entra." O resto era técnica de relojoeiro: conferir a própria silhueta refletida na lente da câmera, corrigir o ângulo da máscara, o pendor do pescoço, "até o último segundo". O efeito confundia até quem trabalhava ao lado. Nas enciclopédias de fãs sobrevivem o espanto de Shinji Kasahara, ator de "Timeranger", ao ver um homem sair do traje da Time Pink, e o veredicto de Mika Katsumura, a atriz da personagem: ele era "mais feminino do que eu".

Pinks completamente diferentes
Nakagawa recusava a ideia de uma Pink genérica. "Carranger é Carranger, Timeranger é Timeranger — são Pinks completamente diferentes", escreveu. Sua Time Pink era "forte, antes de tudo; com algo de solitário... às vezes fofa? Foi dificílimo". Para a Go Pink de "GoGoFive" — a socorrista Matsuri, do esquadrão de resgate cujo "55V" ficou gravado no endereço de seu blog e de sua conta no X, motokuni55v —, ele mesmo inventou a pose de apresentação: os braços erguidos diante do corpo carregam, explicou décadas depois, uma criança recém-resgatada dos escombros.
"Significa: proteger qualquer vida."
Nakagawa, sobre a pose que criou para a Go PinkO diretor de ação Takeda aprovou na hora: "Ahh, perfeito — fica essa!" Em 2025, celebrando o aniversário da série, Nakagawa resumiu: "Um trabalho de um ano virou uma convivência de 26."
O último chamado
Em 2002, a linha de montagem mudou: máscaras menores, e as heroínas passaram, em regra, às atrizes-dublês — ele ainda vestiu, de empréstimo, a Hurricane Blue nos dois primeiros episódios daquele ano, segundo o próprio relato. Nakagawa atravessou o espelho de volta: foi o palhaço-vilão Yabaiba durante todo o "Gaoranger", deuses infernais em "Magiranger", ayakashi em "Shinkenger". Até que, em 2006, aos 35 anos — "achava que heroína, para mim, tinha ficado para trás" —, veio "Boukenger". Escalado primeiro como Bouken Yellow, acabou, "como que puxado", na Bouken Pink; o figurino o esperava pronto, cortado sobre o molde de seu corpo de dez anos antes, o da Carranger.
Em 7 de janeiro de 2006, gravando cenas da abertura, quebrou o ombro direito e saiu do estúdio de ambulância; perdeu os primeiros meses da personagem e voltou com uma placa de metal aparafusada no braço — retirada um ano depois e guardada até hoje.
"Durante um ano limitou meus movimentos, mas sustentou meu braço direito e lutou comigo. É parte do meu corpo."
Nakagawa, em janeiro de 2026, ao postar uma foto da placaHavia simetria no elenco: a Bouken Yellow era Hachisuka. Duas heroínas, dois homens — a velha guarda inteira se despedindo em dueto. Foi o último posto regular de Nakagawa como herói; a tradição só voltaria a ter uma heroína fixa interpretada por um homem em 2023, quando o próprio Hachisuka, sexagenário, vestiu a Papillon Ohger de "King-Ohger".
Kiryu, Monster X e o Parlamento demolido
Há uma segunda carreira inteira espremida nas margens dessa história, e ela pisa mais forte. Entre um esquadrão e outro, Nakagawa circulou por nove séries de Kamen Rider, de "Black RX" (1988) a "Wizard" (2013). Na Toho, foi o Kiryu — o Mechagodzilla biomecânico — de "Godzilla × Mothra × Mechagodzilla: Tokyo S.O.S." (2003) e, em "Godzilla: Final Wars" (2004), acumulou três monstros: King Caesar, Monster X e Kaiser Ghidorah, este último um traje para dois, com Toshihiro Ogura atrás e Nakagawa na frente, operando as três cabeças nos planos fechados.
Do Monster X, conta o livro oficial, ele passou as filmagens acreditando que o nome fosse provisório; quando perguntou ao produtor Shogo Tomiyama qual seria o definitivo, ouviu: "Vai assim mesmo." Guarda como troféu a lembrança de ter demolido o Parlamento japonês ao lado do Godzilla de Tsutomu Kitagawa, "um veterano acima das nuvens". No mesmo 2003, seu nome aparece até em "O Último Samurai". E quando, em 2017, uma "eleição geral" de monstros na TV Asahi pôs o Kiryu em 12º lugar, sua reação foi a de quem sabe que desaparecer por completo é impossível.
"Revendo agora... aquilo ali não é outra coisa senão eu mesmo. Os cacoetes humanos, a gente não consegue apagar."
Nakagawa, sobre rever o Kiryu em 2017"O Gabutyra não se move sem mim"
A prova máxima do ofício chegou em 2013, quando "Kyoryuger" precisou de alguém para habitar o Gabutyra, um tiranossauro vermelho de quase quatro metros de comprimento, visibilidade zero à frente, instruções que mal se ouviam lá dentro. O traje foi refeito várias vezes sobre o corpo dele, com ele presente desde a construção, e o diretor de tokusatsu Hiroshi Buta resumiu no livro oficial da série: "Só o Nakagawa consegue operá-lo." A essa altura, Nakagawa nem pertencia mais à JAE — saíra no fim de 2010, depois de 22 anos de casa —, mas o presidente da empresa, Osamu Kaneda, ao saber da escalação, destacou um assistente para acompanhá-lo, cortesia de chefe antigo a soldado ilustre.
"O Gabutyra não se move sem mim. Quando ele se mexe, eu estou lá. Se quiserem movê-lo, me chamem."
Motokuni Nakagawa, no blogChefe de seção tímido, pai bondoso, samurai
A vida depois dos trajes tem sido a de um ator de ofício japonês — ou seja, invisível de um jeito novo. Pela agência Takarai Project, ele vira soldado-monge no drama histórico "Kamakura-dono no 13-nin", soldado que volta da guerra num drama de TV, "chefe de seção tímido, pai bondoso, samurai", como anuncia sem cerimônia o catálogo da própria agência ("Faz teatro e ação aos 53!", dizia a propaganda em 2025). Em 2020, estrelou um vídeo do Escritório de Patentes do Japão, "Shohyoken" — "O Punho da Marca Registrada" —, no papel do presidente de uma fabricante de produtos legítimos. Em fevereiro e março deste ano, foi o carcereiro Kanji Kuramoto em dois episódios de "Punch Drunk Woman", da NTV.

Nem tudo coube na coreografia: depois do terremoto de 2011, ele organizou ações beneficentes e levou shows de heróis a crianças das áreas devastadas — e, anos mais tarde, escreveu que antigos colegas haviam espalhado a mentira de que ele embolsara as doações, acusação que negou publicamente como "sem nenhum fundamento". O homem que o descobriu naquela cafeteria, Junji Yamaoka, morreu em 2021 sem despedida. "Meu grande benfeitor", escreveu Nakagawa em 2025. "Ainda me dói não ter conseguido dizer adeus."
O arquivista do próprio desaparecimento
E aqui chega a parte que nenhuma máscara disfarça: a injustiça. Quando a imprensa japonesa celebra o onnagata do tokusatsu, celebra Hachisuka — com justiça, diga-se. O grande livro-reportagem sobre a categoria, "O orgulho dos suit actors" (2023), ouviu dezoito veteranos; Nakagawa não está entre eles. A principal reportagem recente sobre a tradição das heroínas interpretadas por homens, publicada em 2024, salta dos anos 80 direto para as atrizes-dublês do século 21 — pulando exatamente os anos em que um único homem vestiu quase todas elas.
O monumento de Mister Pink não está nos jornais: está nas enciclopédias de fãs, no título de um programa de rádio da internet e, sobretudo, no arquivo que ele mesmo construiu. São mais de oitocentos posts do motoblog ao longo de uma década, as memórias despejadas no note durante a pandemia, a conta no X onde ainda hoje ele corrige, tuíte a tuíte, quem vestiu o quê em 1996 — a ponto de a Wikipédia japonesa citá-lo como fonte primária de seus próprios verbetes. O homem cujo trabalho era não deixar rastro tornou-se, discretamente, o melhor arquivista do próprio desaparecimento.

Sua tese sempre foi clara: o que faz um suit actor, escreveu, é "o orgulho e a responsabilidade de quem foi escolhido" — e uma presença única, "capaz de derrubar o 'ora, de máscara, qualquer um serve'". Reveja o timing cômico da Pink Racer, a melancolia da Time Pink, a fúria maternal da Go Pink: está tudo lá, assinado sem assinatura.
Me chamem quando quiserem
Nakagawa completou 55 anos na sexta-feira passada. No sábado que vem, dia 29, um restaurante de monjayaki chamado Warabe, no bairro de Oizumigakuen — a poucos passos dos estúdios da Toei onde ele apanhou, explodiu e dançou por três décadas —, fecha o salão ao meio-dia para um evento com nome de reunião de família: a "Roda de conversa em torno de Motokuni Nakagawa". No convite, publicado em sua conta no X no dia do aniversário, ele lembrou o garoto de 13 anos que ouvia o encerramento de "Uchuu Keiji Shaider" — aquele que promete "pode me chamar quando quiser!" — e reclamava com a televisão: "Chamar como, se ninguém sabe onde encontrar o Shaider?"
"No dia 29, vocês vão encontrar o Motokuni Nakagawa com certeza. Então me chamem quando quiserem."
O homem que passou a vida inteira exatamente onde ninguém podia vê-loMotokuni Nakagawa 中川素州 (n. 1971). Perfil baseado nos relatos do próprio ator — motoblog, note e a conta motokuni55v no X — e em livros oficiais das séries citadas.